O que a designação terrorista do PCC e CV pelos EUA realmente significa — e por que eu já havia visto esse movimento chegar
Em março de 2026, o governo Trump está prestes a classificar o PCC e o Comando Vermelho como Organizações Terroristas Estrangeiras. O trabalho técnico no Departamento de Estado está concluído. Aguarda apenas a assinatura política. Marco Rubio é o principal defensor da medida dentro da administração.
O chanceler brasileiro Mauro Vieira ligou para Rubio no domingo à noite para tentar barrar a designação. A visita de Lula à Casa Branca — prevista para março — segue sem data definida.
Não é coincidência. É sequência.
Por que isso não é só uma questão de segurança pública
O governo brasileiro insiste que crime organizado é assunto doméstico — questão de polícia e promotores, dentro das fronteiras nacionais. A lei antiterrorismo brasileira de 2016 até exclui explicitamente o tráfico de drogas com fins lucrativos da definição de terrorismo.
Washington não aceita esse enquadramento. E não é de hoje.
Desde maio de 2025, o chefe de sanções do Departamento de Estado, David Gamble, formalmente pediu ao Brasil que adotasse a designação durante visita a Brasília. O pedido foi ignorado. A resposta americana foi escalar.
A lógica da administração Trump é documentada e consistente: a Estratégia de Segurança Nacional de dezembro de 2025 e a Estratégia de Defesa Nacional de janeiro de 2026 tratam o narcotráfico latino-americano como ameaça à segurança nacional equivalente ao terrorismo internacional. Não é retórica. É doutrina operacional.
E a doutrina já foi aplicada: em julho de 2025, após designar o Cartel de los Soles venezuelano, os EUA iniciaram ataques navais contra embarcações de tráfico. Em janeiro de 2026, Maduro foi capturado por forças especiais americanas em Caracas.
O Brasil conhece a sequência. Por isso Vieira ligou para Rubio às pressas.O que escrevi em março — e o que isso confirma
Em artigo publicado há poucos dias aqui neste Substack, levantei uma hipótese que saiu de um briefing de risco geopolítico apresentado a executivos europeus: a pressão fiscal de 2027 pode ser, paradoxalmente, um trunfo diplomático para o próximo presidente brasileiro — porque quem está sendo disputado por dois grandes poderes tem margem de barganha.
O que não desenvolvi suficientemente naquele texto, e que este momento torna urgente explicitar, é o outro lado dessa equação.
O poder de barganha só existe enquanto o Brasil é percebido como um ator soberano e confiável. Quando Washington começa a enquadrar o Estado brasileiro não como parceiro com problemas de segurança, mas como estrutura permeável ao crime organizado — a equação muda completamente.
Não é mais barganha. É pressão.
A pipeline que ninguém quer ver
O que o Lula teme — e o que os diplomatas brasileiros expressam em caráter reservado — é a sequência que Washington já executou em outros contextos:
Designação terrorista → Sanções financeiras → Operações extraterritoriais
O Brasil viu esse filme se desenrolar na Venezuela em tempo real. Entende o que significa ter as organizações criminosas que operam dentro do seu território classificadas sob jurisdição americana. Significa que qualquer banco ou empresa com operações nos EUA que mantenha transações com entidades ligadas ao PCC ou CV comete crime federal americano. Significa congelamento de ativos. Significa que o FBI pode prender operadores dessas facções em qualquer país com acordo de extradição.
E significa, acima de tudo, que os EUA passam a ter jurisdição legal sobre uma fatia do que acontece dentro do Brasil — com ou sem permissão de Brasília.
O terceiro jogador que o modelo não viu
Quando escrevi sobre a “armadilha da paralisia” — um presidente com 2% de orçamento discricionário, Congresso que capturou o orçamento, STF expandido — apontei que o modelo europeu de risco subestimava a camada informal da política brasileira.O que nem o modelo europeu nem eu desenvolvemos o suficiente é o seguinte: o crime organizado brasileiro já não é apenas um problema de segurança pública. Ele é um terceiro jogador geopolítico.
O PCC opera em mais de 22 estados brasileiros e tem alianças documentadas com cartéis colombianos e mexicanos. O Comando Vermelho domina fronteiras e favelas com infraestrutura logística que rivaliza com operações estatais. Juntos, movimentam bilhões de dólares por ano — parte dos quais circulam pelo sistema financeiro formal via lavagem.
Quando Washington designa essas organizações como terroristas, está dizendo, na prática, que o Estado brasileiro não controlou seu próprio território a ponto de exigir intervenção da jurisdição americana.
Essa é a afirmação mais grave diplomaticamente. E é também, em vários aspectos, factualmente difícil de contestar.
O que está realmente em jogo
O Brasil tem nióbio, lítio, terras raras, urânio, a maior reserva de água doce do planeta e uma posição geográfica que o torna corredor estratégico para o Atlântico Sul.
Washington quer que o Brasil se afaste da China em telecomunicações, mineração e infraestrutura. Pequim quer exatamente o oposto — e continua avançando silenciosamente, como documentei aqui (substack) na série anterior.
No meio desse tabuleiro, um Estado com instituições fragilizadas, crime organizado com penetração territorial profunda e um presidente que chega a 2027 com 2% de orçamento discricionário.
A designação terrorista não é apenas uma questão de segurança. É uma alavanca de pressão sobre um país que os EUA precisam realinhar — antes que a China consolide sua posição nos ativos que realmente importam.
Isso não é análise favorável a nenhum dos lados. É a descrição do tabuleiro como ele é.
A pergunta que fica
Quando Lula diz a Ramaphosa — em encontro realizado ontem em Brasília — “se não nos prepararmos em termos de defesa, um dia alguém vai nos invadir”, ele está enunciando, em voz alta, o cenário que a designação terrorista torna plausível.
A questão não é se os EUA vão invadir o Brasil. A questão é se o Brasil tem, neste momento,a capacidade institucional, a coesão política e a clareza estratégica para jogar as cartas que tem.
Com um governo pressionado por Washington, infiltrado pela China e com o crime organizado operando como estado paralelo em partes significativas do território — essa é a pergunta que 2026 vai forçar a responder.
Esta análise faz parte de uma série sobre geopolítica brasileira e soberania estratégica. Os textos anteriores desta série estão disponíveis no Substack.

Eduardo Maschietto é um autor ítalo-brasileiro, especialista em sobrevivência urbana, Direito e Ciências da Computação, com mais de uma década de experiência internacional. Instrutor certificado de armamento e tiro e Tiro Defensivo, palestrante e escritor, Eduardo é autor de obras como Declínio Moral e Seja um Patriota e Não um Idiota. Ele se dedica a educar e conscientizar sobre segurança, valores fundamentais e responsabilidade individual, combinando história, filosofia e prática em seus projetos e reflexões.









